Olhar-se no espelho deveria ser o ato mais simples do dia, mas para muitos, tornou-se o mais desafiador.

Não pela imagem física que o vidro devolve, mas pelo eco do silêncio que vem logo em seguida. Em uma era de filtros e estéticas milimetricamente calculadas, nos tornamos especialistas em construir fachadas impecáveis. Mas a verdade é que, enquanto a nossa casa interna não estiver bem estruturada e elaborada, o que vemos no espelho nunca será o nosso ser real, será apenas a armadura social que escolhemos vestir para sobreviver ao mundo lá fora.
Essa desconexão entre o que mostramos e o que sentimos não é um fenômeno novo, e a ciência da mente estuda isso há muito tempo. Quando pensamos na nossa história, a psicologia e a psicanálise nos mostram que a nossa identidade começa a ser desenhada a partir do olhar do outro. Ainda na primeiríssima infância, um conceito muito trabalhado por Jacques Lacan, nós olhamos para o espelho e precisamos que alguém nos diga quem somos. É o olhar atento de quem cuida de nós que nos dá a sensação de que somos “inteiros”. O problema surge quando, ao longo da vida, passamos a depender exclusivamente desse olhar externo para validar a nossa existência. Começamos a decorar a fachada da casa para agradar quem passa pela rua, enquanto os cômodos de dentro continuam vazios, escuros ou bagunçados.
Freud, ao investigar as profundezas humanas, já nos alertava que a nossa mente é uma construtora implacável. Ela guarda cada palavra, cada rejeição e cada “verdade” que nos foi dita na infância. Se aprendemos a construir nossos alicerces baseados em fragilidades ou em mentiras que nos contaram no passado, a estrutura atual fica abalada. Não adianta colocar uma pintura nova na parede externa se as vigas de sustentação estão comprometidas. A mente humana não aceita maquiagem definitiva; aquilo que não é elaborado e compreendido internamente sempre dará um jeito de aparecer, seja através de uma ansiedade inexplicável, de um cansaço crônico ou daquela sensação persistente de que estamos vestindo um disfarce.
A estrada do autoconhecimento não serve para nos tornar perfeitos aos olhos do mundo, mas para nos tornar reais diante de nós mesmos. É aprender a entrar nos cômodos escuros da nossa própria história, recolher o que foi quebrado e entender o que ali existe. Nenhum estereótipo se sustenta por muito tempo se não houver substância por dentro. O cotidiano, com suas adversidades e cobranças, é um teste constante para a nossa estrutura. Para resistir aos ventos externos, precisamos parar de investir tanto na rigidez da armadura e começar a focar na solidez da nossa base. Só quando tivermos a coragem de habitar, de verdade, a nossa casa interna, aceitando suas falhas, suas reformas e sua história, é que o espelho deixará de ser um juiz estético para se tornar, finalmente, um lugar de encontro.
Vanessa Spolaore Psicanalista | VS Terapia e Saúde