Você já esteve em uma reunião onde o discurso do líder era impecável, extremamente educado e pautado nas melhores práticas de gestão, mas o ambiente parecia carregar uma tensão quase física? Por trás das palavras polidas, manifestava-se uma rigidez sutil, um tom ríspido disfarçado ou uma impaciência no olhar.

Vanessa Spolaore Psicanalista

Esse fenômeno, tão comum no cenário corporativo atual e intensificado pelas narrativas ideais que consumimos na internet, tem nome: é o Falso Self Corporativo. Na psicanálise, o Falso Self é uma estrutura de defesa que criamos para sermos aceitos pelo ambiente, esmagando a nossa essência autêntica, o Verdadeiro Self, em troca de uma máscara de perfeição. Quando uma cultura empresarial ou a busca por aprovação social exige apenas a roupagem engomada, forçamos a nossa psique a uma atenção plena aos movimentos e à postura. Tentamos controlar obsessivamente a imagem externa. O problema é que esquecemos que o inconsciente não aceita dominação, ele se manifesta nas sutilezas, nas entrelinhas, e é captado de forma inconsciente pela psique da equipe.

O resultado dessa incongruência é que o grupo perde a referência de segurança e, sem segurança psicológica, a criatividade morre e o medo passa a ditar as regras. Sustentar uma estrutura externa quando o Ser interno está esmagado gera angústia, adoecimento e os sintomas físicos e psicológicos que vemos explodir no mercado hoje.

Para compreender o impacto disso no desenvolvimento de lideranças, gosto de usar a analogia do balão.

Imagine dois balões idênticos por fora, mas preenchidos de formas completamente diferentes. De um lado, temos o balão cheio de ar comum. Ele até está cheio, mas não consegue se sustentar no alto, ele é pesado. Para compensar essa falta de sustentação interna, ele se enche de máscaras, defesas e armaduras pesadas. Esse perfil de líder tem medo, esconde segredos, carrega vergonhas não elaboradas e ainda não atingiu um ponto de desenvolvimento psíquico suficiente para liderar a si mesmo, passando a liderar pela rigidez porque a vulnerabilidade o assusta. Ao lado dele, temos o balão com gás hélio. Este se eleva naturalmente porque se preencheu de autoconhecimento. Ele não buscou apenas a posição externa ou o brilho estético, foi atrás de entender a si mesmo, de nomear suas angústias e definir seus verdadeiros posicionamentos. Ele se torna leve, ganha altitude e, conseqüentemente, mantém os demais leves também. Ambos são balões, mas se direcionam para posições opostas quando estão cheios de matérias diferentes.

O desenvolvimento de líderes autênticos, inteiros internamente, exige o suporte de profissionais devidamente treinados na área do desenvolvimento humano profundo. É aqui que reside a necessidade de procurarmos o acompanhamento de um psicanalista ou psicólogo, pois o real desenvolvimento e a desconstrução dessas armaduras pesadas não ocorrem com dinâmicas superficiais, mas sim através do processo terapêutico.

Na psicanálise, além do campo da escuta, buscamos a reflexão sobre as posições e escolhas que tomamos. Olhando para o nosso contexto atual, a observância que faço fica pautada em uma grande questão: o quanto estou me permitindo enxergar a mim mesmo, ou o quanto estou apenas me colocando na massa, em uma busca por posições vazias que me colocam em situações de fragilidade e em repetições infantis de merecimento ou de aceitação?

Fica a reflexão para o dia de hoje: Qual balão você está escolhendo ser? O balão do posicionamento, que se desenvolve de dentro para fora, ou o balão da postura, que ainda não consegue enxergar as questões internas e se permitir viver com mais leveza?

Vanessa Spolaore Psicanalista | VS Terapia e Saúde